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Chegada de brasileiros muda o mercado de trabalho em Portugal

Publicado dia 27/12/2023 às 11h09min
Cidadãos oriundos do Brasil suprem a necessidade de mão de obra, empreendem, reforçam o caixa da Previdência, movimentam a economia e obrigam as empresas a reverem suas estratégias de atuação no país europeu

Os brasileiros que, nos últimos anos, desembarcaram em Portugal estão provocando uma mudança substancial no mercado de trabalho local e, por consequência, na estrutura da economia. O resultado mais vistoso dessas transformações foi revelado pelo próprio governo português. Somente no ano passado, os trabalhadores oriundos do Brasil contribuíram com a quantia recorde de 669 milhões de euros (R$ 3,7 bilhões) para a Segurança Social — o sistema previdenciário lusitano — quantia correspondente a 36% de tudo o que foi arrecadado com a mão de obra estrangeira. Oito em cada 10 brasileiros em idade ativa estão empregados em território luso, distribuídos pelos mais diversos ramos de atividade.

Mesmo no pesado mercado segurador, em que as mudanças ocorrem mais lentamente, a maior presença de brasileiros em Portugal chacoalha as empresas. Desenvolvedora de negócios da MDS, corretora de seguros e consultoria de riscos líder no país europeu, Lívia Albuquerque Bisoni frisa que, para atender as demandas dos exigentes consumidores brasileiros, as companhias estão tendo de contratar funcionários originários do Brasil. "Há cinco anos, a nossa empresa tinha apenas um colaborador brasileiro. Hoje, são oito", enfatiza. Os brasileiros estão puxando as vendas de seguros de crédito da casa própria, de vida, de saúde e de automóveis, praticamente invertendo a curva de queda desse segmento.

Donos do dinheiro
Mas os brasileiros não se destacam apenas entre os trabalhadores. Eles também vêm empreendendo e gerando empregos em Portugal. Dados do relatório do Observatório das Migrações apontam que os brasileiros formam o maior grupo de empresários estrangeiros no país: são 26,2% deles, bem à frente dos chineses, que aparecem na segunda colocação. Há, atualmente, quase 10 mil negócios liderados por cidadãos oriundos do Brasil. "Se os empresários chineses estão concentrados no comércio, os brasileiros estão espalhados por vários setores", anota Catarina Reis de Oliveira, autora do documento.

Ela detalha que 20% dos empregadores brasileiros estão no setor da construção; 18,1% no ramo de alojamentos, restaurantes e similares; 14,1% no comércio, 9% no segmento da saúde e de apoio social, e o restante nas demais atividades. "Não por acaso, o mercado da construção está mudando de cara. Hoje, é bem mais comum a construção de condomínios com áreas de lazer, de que os brasileiros gostam, em Portugal. Até bem pouco tempo, isso era impensável", assinala Gutman. "O legado brasileiro está ficando cada vez mais evidente para onde quer que se olhe", emenda o advogado Fábio Pimentel, também especializado em imigração. "A comunidade brasileira em Portugal está muito diversa", complementa.

Empregados, em maioria, e empreendendo em Portugal, os brasileiros têm remetido um volume crescente de recursos para o Brasil, seja para complementar a renda das famílias, seja para fazer poupança. Pelos cálculos do Banco Central, nos nove primeiros meses deste ano, as remessas somaram 229 milhões de euros (R$ 1,1 bilhão). Portugal, por sinal, superou o Reino Unido e se tornou o segundo país de onde os brasileiros mais enviam dinheiro para o Brasil. Dono de uma agência de viagens e uma frota de carros, o baiano Reginaldo Soares, 38 anos, dos quais 16 em Portugal, investe boa parte do dinheiro que fatura em território luso em fazendas de gado no interior da Bahia. Os negócios no Brasil são geridos pelo pai dele. "Fiz de tudo desde que atravessei o Atlântico. Hoje, estou em uma situação bem confortável", diz.

A produtora de eventos Carol Deguti também não tem do que reclamar. Aos 39 anos, sendo duas décadas em Portugal, ela se tornou referência no mundo dos shows. "O mercado em que atuo está em alta. E são os brasileiros que têm dado sustentação aos negócios", reconhece. "Os shows estão sempre lotados, a ponto de centenas de pessoas ficarem do lado de fora, por falta de espaço. Muitos falam que Portugal está em crise. Não estou vendo isso. Muito pelo contrário. Meus eventos de fim de ano estão praticamente esgotados", destaca.


 

Fonte: Correio Brasiliense